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Casal de Paços de Ferreira desafia a gravidade e os limites humanos no Mundial de Skyrunning

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Casal de Paços de Ferreira desafia a gravidade e os limites humanos no Mundial de Skyrunning

O amor e o desporto têm uma capacidade única de transformar vidas, e a história de Célia Neto e Abílio Fernandes...

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O casal, natural de Sanfins de Ferreira (Paços de Ferreira), prepara-se para viver um dos momentos mais altos das suas carreiras: representar Portugal no Campeonato do Mundo de Masters Skyrunning, que se realizará em França no próximo dia 4 de julho.

Para Célia, vestir a camisola das quinas começa a tornar-se um hábito de ouro, reafirmando o seu percurso de excelência na modalidade. Para Abílio, que acumula as funções de marido, parceiro de corrida e treinador da atleta, esta será a estreia absoluta ao serviço da Seleção Nacional. Juntos, elevam o nome do concelho além-fronteiras, numa jornada construída à custa de suor, persistência e uma paixão que, curiosamente, nasceu de uma brincadeira.

O vício que nasceu de uma "loucura" saudável

O percurso de Célia Neto até ao topo mundial do skyrunning é tudo menos convencional. Contrariando a lógica de quem respira desporto desde o berço, a atleta pacense encontrou a sua vocação de forma quase acidental. "A nossa história é curiosa. Nunca estive ligada ao desporto, apesar de o meu marido ser professor de Educação Física", começa por relatar Célia, com um sorriso. "Por brincadeira, participei num trail solidário e gostei tanto que comecei a emendar umas provas nas outras. Foi uma paixão que surgiu do nada e se transformou num vício saudável."

Nos primeiros passos desta nova vida, a solidão foi a sua maior companheira. Abílio, hoje o seu principal pilar competitivo, via a paixão da esposa com algum distanciamento. "Comecei nesta modalidade e andei cerca de um ano a correr sozinha. O homem que hoje vai comigo ao Campeonato do Mundo, no início, nem sequer me acompanhava nestas andanças", revela a atleta.

Abílio, por seu turno, justifica essa fase inicial: "Na altura, eu dedicava-me ao BTT e a Célia começou a caminhar. Começou com aquelas 'loucuras' das caminhadas longas, como as idas a Fátima. Como ela ia com os amigos, eu não a acompanhava e mantinha-me no ciclismo."

A persistência de Célia acabou por vencer. "Ao fim de quase um ano de tanta insistência, ele aceitou fazer uma prova comigo. A verdade é que, mal cruzou a meta, ficou tão apaixonado como eu. E nunca mais parou", conta a atleta.

A partir do momento em que Célia trouxe o seu primeiro troféu para casa, a perspetiva de Abílio mudou radicalmente. "Um dia, chegou a casa com o seu primeiro troféu — uma imagem de Santa Apolónia. A partir desse momento, percebi que ela levava a modalidade a sério e comecei a acompanhá-la", recorda o treinador. Contudo, os treinos iniciais roçavam a comédia: "No início, ela não sabia correr e frustrava-se porque o ritmo era tão lento que eu, a caminhar, conseguia apanhá-la. Ela irritava-se, mas eu explicava-lhe que era um processo normal."

A evolução de Célia foi estratosférica. Passou das provas de 10 e 15 quilómetros — "cheguei a correr as 52 semanas do ano", confessa — para desafios hercúleos de 100 e 120 quilómetros, descobrindo o seu verdadeiro talento no Endurismo e no Skyrunning.

Skyrunning: Quando a montanha dita o limite

O fascínio do casal recaiu sobre o skyrunning, uma disciplina que desafia a gravidade e o limite do esforço humano. "É uma modalidade muito mais exigente. Não corremos tanto como no trail tradicional; envolve mais trepar e enfrentar dificuldades técnicas. Leva-nos mesmo ao extremo", descreve Célia Neto, evidenciando o encanto pela superação. "Quando a prova nos leva ao limite, é fascinante perceber a nossa capacidade de superação. O ser humano é incrível. Como é possível alguém que não corria fazer hoje 100 quilómetros e provas de skyrunning? É espetacular."

Esta capacidade inata para o sofrimento em alta montanha é validada pelo olhar técnico de Abílio: "A Célia é uma atleta de endurance extremamente resistente em alta montanha. Tem as características ideais para a prova que vamos enfrentar, que exige muita altimetria e técnica. Mesmo treinando, eu não tenho as características dela. E, por ser mais velho, já sinto maior dificuldade em suportar tanta carga."

O sucesso no cenário internacional já não é novidade para Célia. "Nunca imaginei chegar a este patamar. No ano passado, fui ao Campeonato do Mundo na Bulgária e conquistei a medalha de bronze no meu escalão. Também participei no Mundial de Elite, em Itália, com uma classificação muito positiva. Voltar a ser convocada este ano é o reconhecimento da minha dedicação e capacidade."

Quando questionada sobre a pressão de vestir as cores de Portugal, a resposta é de uma leveza inspiradora: "Nunca sinto pressão, porque o que eu realmente amo é correr. Encaro isto como uma oportunidade para colecionar momentos de vida. Carregar a bandeira do nosso país ao peito é, simplesmente, espetacular."

O treinador no terreno e a filosofia de família

A ligação de Abílio Fernandes ao desporto é profunda e técnica. Ex-árbitro da 1.ª Divisão de Futebol e atleta de BTT, formou-se em Educação Física. O seu papel enquanto treinador de Célia — instigado pela própria, que foi quem o "incentivou a tirar o curso na universidade" — alargou-se, acompanhando hoje diversos atletas a nível nacional.

Para Abílio, participar no Campeonato do Mundo como atleta é também uma enorme ferramenta de trabalho. "O facto de ser simultaneamente atleta e treinador permite-me compreender melhor, no terreno, as dificuldades reais de quem corre. Estar no meio da elite mundial facilita essa perceção e, acima de tudo, faz-me evoluir como técnico", explica.

O desporto é a argamassa que une esta família, que conta ainda com uma filha árbitra de futebol. "Muitas vezes perguntam-nos se praticar desporto a este nível não é prejudicial. É verdade que o alto rendimento pode deixar marcas no futuro, mas os benefícios que retiramos agora superam largamente os riscos", reflete Abílio. "Como competimos juntos, enquanto marido e mulher, isso complementa o nosso gosto pela modalidade. Conhecer outras pessoas e outros lugares é uma forma de evolução. É uma maneira de levarmos a vida, mais preenchida e, sem dúvida, diferente."

À beira de embarcarem para França, o significado desta convocatória dupla não podia ser mais claro para Célia Neto. O apoio que começou de forma relutante transformou-se no grande pilar da sua carreira. "Ter o acompanhamento dele já era bom, mas sabermos que daqui a uns dias vamos vestir a mesma camisola da Seleção é simplesmente espetacular e torna tudo mais gratificante", conclui.

No dia 4 de julho, em solo gaulês, Célia e Abílio não vão apenas trepar montanhas; vão provar ao mundo que, com amor, dedicação e planeamento, o topo está ao alcance de quem nunca desiste de desafiar os próprios limites.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: www.averdade.com

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